Ícaro Redimido

Capa da 1a edição de 2003 Capa da edição atual de 2006 Capa da edição de 2018
Obra mediúnica psicografada nos anos de 1997 a 2000 e lançada em primeira edição pela EDIAME (Editora da Aliança Municipal Espírita de Belo Horizonte), em abril de 2003. Descreve o resgate e a recuperação do espírito Santos Dumont após o seu suicídio em 1932, segundo o relato de uma entidade cujo pseudônimo é Adamastor. Embora a obra se estenda em particularidades da vida pós-morte do grande inventor, aborda essencialmente a depressão e o suicídio, sob a ótica da doutrina espírita.
Seguem os trechos introdutórios da obra, como esclarecimentos, notas, sumário e apresentação:
Esclarecimentos Necessários
Apresento ao leitor uma obra que não pode ser considerada simplesmente uma ficção. É fruto de uma estranha parceria com uma inteligência livre da matéria. Sei que lhe dar tão exótica origem coloca-a no rol das literaturas questionadas quanto à sua veracidade e levanta a suspeita de se tratar de um produto da imaginação aguçada de alguém capaz de se conceber dominado por forças ocultas, conduzindo o relato dos escritos aqui apresentados. Por isso, ela está estritamente endereçada àquele que aceita a possibilidade da existência da vida em um outro plano que não o da carne e admite a viabilidade de trocas de informações através das correntes de pensamentos que trafegam entre os dois mundos.
Este livro, no entanto, não foi desenvolvido pelas vias da psicografia mecânica em que o medianeiro pouco interfere em seu trabalho, mas mediante um envolvimento ativo e direto de inspiração consciente. Escrevi-o bastante cônscio de mim mesmo e com clara percepção das ideias que entretecia na mente. Apenas as sentia brotar com uma profusão inusitadamente rápida e com uma clareza tão cristalina que não me deixavam a mínima dúvida quanto à sua origem. Imagens nítidas formavam-se em minha tela mental sem o mínimo esforço imaginativo e eu apenas cuidava de lhes dar corpo, vestindo-as com minhas próprias palavras, enquanto me sentia enlevado e envolvido por um halo de vibrações de difícil definição. O tempo parecia-me estacionado, ainda que a sucessão das ideias fosse muito superior à minha reduzida capacidade de composição e habilidade de escrita. Embora já ciente do corpo do trabalho, não tinha a menor noção do que iria escrever, até o momento em que penetrava naquele mágico fluxo de ideias. A presença nítida de alguém que não pertence a este plano de vida era evidente e incontestável, e sua influência bastante poderosa para que me curvasse diante dele com sentimento de simpatia, admiração e respeito. Eu o seguia em pensamento, em pleno comando de minhas funções orgânicas, mesmo sentindo, naquele inusitado clima de enlevo, a sensação de estar flutuando ou como se meu corpo estivesse leve e estendido na posição horizontal, atado apenas pelo cérebro.
A vivência dos fatos relatados era de tamanha magnitude que, muitas vezes, atirava-me em lágrimas por senti-los com surpreendente realidade, como se estivesse presente neles, tal a nitidez com que os quadros se formavam em minha mente. Essas sensações são as únicas provas, ainda que restritas ao meu próprio testemunho, de que lidei com forças fora da normalidade e além de mim mesmo. Outras explicações para a origem dos relatos desta obra não posso apresentar, a não ser minha própria sinceridade. Os descrentes da realidade do espírito, naturalmente, a tomarão como produto de uma imaginário aguçado. Não importa, porém, desde que suas lições sejam levantadas como possibilidades.
Durante um ano, antes de iniciar este trabalho, fui invadido, no momento do sono, por uma profusão de sonhos muito reais e que entreteciam todo o enredo da história que terminaria por escrever mais tarde. No entanto, eu não estava ciente do fato e não podia compreender a razão daquilo. Passava os dias acompanhado por aquelas imagens inquietantes e guardava a estranha sensação de trazer a mente invadida por pensamentos que não me pertenciam. De certa forma, perturbavam-me, dificultando-me o trabalho diurno, por proporcionar-me íntima inquietude e a inexplicável impressão de não estar completamente desperto e integrado ao nosso mundo. Hoje, compreendo que se tratava realmente de uma gestação de ideias, um preparo necessário para o perfeito desenvolvimento da obra. Embora incômodas, exerciam uma forma de pressão, como se exigissem para ser escritas. Essa sensação desaparecia por completo no instante em que as transferia para o papel, proporcionando-me agradável alívio. Enquanto o enredo se estendia, minhas noites continuaram sendo enriquecidas pelos mesmos sonhos vívidos e ricos de detalhes das imagens e dos ambientes que depois se desdobravam na dissertação da história narrada. Por isso, além de escrevê-la, eu a vivi intensamente ao longo dos três anos, tempo consumido em sua composição.
Uma entidade que não pertence a este mundo esteve presente junto a mim, inspirando-me no seu relato. Responde pelo nome de Adamastor, e sentia a força de sua presença impondo-me o seu pensamento e dirigindo ativamente o trabalho. Por vezes, podia acompanhar frase por frase a sua elaboração mental, para me perder logo em seguida numa avalanche de ideias e imagens qual torrente de água cristalina a banhar-me a alma com impetuosidade e ternura ao mesmo tempo. Pedindo-me paciência, ouvia-o na tela mental, a pedir-me: “Escuta-me não com teus ouvidos, mas com a tua alma. Guarda na memória as imagens que vês e as emoções que experimentas. Depois, escreve-as com calma, sem tanta pressa, e não queiras apreender tudo que te exprime a ideia evasiva. No final, tudo se acomodará. Não temas e nada se perderá”. No entanto, não pude evitar que minhas próprias interpretações interferissem no processo e que minha parca condição intelectual maculasse a clareza dos conceitos percebidos por essa inusitada via de acesso a ideias. Por isso, guardo a certeza de não ter sido suficientemente assertivo para evitar os erros que assumo como de minha inteira e única responsabilidade.
Muitos nomes e termos inteiramente estranhos ao meu ambiente psíquico eram percebidos com natural insegurança, exigindo-me posterior e cuidadosa averiguação, a fim de conferir-lhes a exatidão, impondo à captação mediúnica um perfeito controle racional. Contudo, surpreendia-me, atestando que a maioria deles correspondia exatamente à forma com que se apresentaram. Entretanto, muitos não se acham registrados ou pelo menos não os pude encontrar nas fontes biográficas ao meu alcance, de modo que admito a possibilidade de erros, em decorrência da exótica origem destes dados e da exiguidade de minha visão metapsíquica. Ainda que um dos objetivos deste trabalho seja a aproximação dos fatos desta e da outra vida, a precisão de seus informes, no que diz respeito à exatidão da grafia, não foi, em momento algum, o seu escopo principal. Seu enredo e seu personagem serviram apenas como um propósito secundário para a veiculação da verdadeira mensagem da obra, que objetiva engrandecer-nos para a vida real do espírito, incentivando nossa melhoria moral, ensinando-nos a valorizar a vida e a vê-la como um meio indispensável para a conquista dos tesouros da eternidade.
Ao perceber o alcance da obra e sua possível relevância para a nossa história, senti-me incapaz de desenvolvê-la com a envergadura de que se fazia necessária. Não guardo dotes de literato e não conheço o idioma o bastante para evitar grandes erros. Não me foi dada, porém, a opção de negar o trabalho e tive de executá-lo a despeito de minha patente insuficiência. Senti-me fortemente conduzido e tenho certeza de que a espiritualidade desprendeu enormes esforços na superação dos óbices que minha ignorância lhe contrapunha. Por isso, espero contar com a compreensão daqueles que, conhecendo minhas parcas possibilidades e inquestionáveis limitações, assistem-me envolvido em um trabalho que transcende minha esfera de conhecimentos e meu âmbito de formação profissional.
Sei que o protagonista destes relatos desperta especial interesse para a história de nossa nação por retratar um de seus mais ilustres personagens. Certamente que muitos questionamentos serão suscitados perante as revelações aqui apresentadas, pelo fato de parecer destituí-lo das glórias e feitos que lhe atribuímos. Creio que a intenção da espiritualidade superior não é diminuir o valor de quem quer que seja, mas apenas nos revelar fatos que possam nos instruir e nos tornar mais felizes. Acredito ainda que se a vida de todos os grandes homens da história universal, excetuando-se o Cristo e seus santos mensageiros, fosse-nos apresentada sob a ótica do espírito, falhas de caráter e fraquezas incontestáveis ser-lhes-iam imputadas, não sendo o nosso herói em particular uma exceção à regra. Nossos ídolos, quase sempre, representam nossos mais genuínos anseios de hombridade e retidão e realizam nossos sonhos de audácias e glórias. Por isso, costumeiramente, vê-los desqualificados ofende-nos os próprios brios.
Estou ciente de que vigora em nossa nação a notícia de que Santos Dumont teria sido Marco Polo e Cristóvão Colombo, que retornou à ribalta carnal para dar prosseguimento às suas aptidões exploratórias. Muitos adotaram essa informação como verdade, sobretudo por apresentarem-na como sendo de autoria de Chico Xavier. Trata-se, contudo, de uma proposta suscitada por César Burnier, um importante pesquisador e intelectual do movimento espírita brasileiro, reconhecido especialmente por seus estudos sobre a reencarnação de outros personagens históricos. Essa tese foi, posteriormente, muito bem desenvolvida pelo pesquisador e analista acadêmico da Universidade de São Paulo, Sady Carlos de Souza Júnior, na brilhante obra intitulada “Fúrias Totêmicas da Alma: Uma Imersão Singular na História das Navegações”. A despeito de parecer muito bem sedimentada e seguir um roteiro lógico nas suas proposições, acredito que essas propostas para as vidas passadas de nosso personagem devam ser encaradas também como hipótese a aguardar futuras confirmações.
Essas narrativas já eram de meu conhecimento muito tempo antes de psicografar a obra de Adamastor, e estava ciente de que os contrariava em certos pontos. Contudo, os relatos que me invadiam a esfera psíquica eram de tal magnitude que sobrepujaram minha resistência em aceitá-los, conduzindo-me à ousadia de apresentar uma proposta diferente do que já estava aparentemente estabelecido nos meios espíritas de nossa nação.
Esclareço ainda que a difundida notícia, contada por Clóvis Tavares, de que, segundo lhe informou Chico Xavier, o “pai da aviação” havia reencarnado como seu filho, Carlos Vítor Mussa Tavares, não invalida a história aqui relatada. Carlinhos, como é chamado, nasceu em 1956 e faleceu em 1973, sendo que o relato de Adamastor se detém em 1945 e nada nos conta sobre as posteriores vivências de seu personagem, não havendo, portanto, nenhuma discordância com o fato.
As notas foram todas colocadas posteriormente, a fim de auxiliar o leitor e são de nossa própria autoria. Algumas, contudo, demonstravam-me nitidamente tratar-se de sugestões do autor espiritual e, por isso, as registrei como tais. Um glossário foi inserido no final do livro com a intenção facilitar a revisão de neologismos próprios do texto.
As lições que se depreendem deste enredo, como as considerações sobre a ovoidização, a energética do psiquismo e as ponderações sobre a doença depressiva do homem podem ser julgadas inéditas e questionadas quanto ao seu real valor doutrinário. Para alguns, parecerão não guardar perfeita identidade com as revelações que até então nos foram apresentadas na revelação espírita. Contudo, reservando-nos o direito de coautor da obra, deixamos claro que se trata de opiniões pessoais, tanto minhas quanto da entidade que as ditou, pois se lhes demos guarida é porque se coadunaram com o nosso próprio modo de pensar e conceber os ensinamentos superiores que me bafejam a razão. Embora as apresentemos como oriundas de uma fonte de pensamentos além do nosso mundo, este não deve ser o motivo para encará-las como verdades absolutas e inquestionáveis. Estejamos certos de que, encarnados ou não, somos seres ainda em crescimento e estamos sujeitos aos mesmos equívocos naturais da jornada do conhecimento. Para isso ressalto as palavras de Allan Kardec, as quais suscito para a nossa reflexão: “um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os espíritos, nada sendo mais do que as almas dos homens, não possuíam nem a plena sabedoria, nem a ciência integral; que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau de adiantamento que haviam alcançado e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. Reconhecida desde o princípio, esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos espíritos e me impediu de formular teorias prematuras, tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles”1 . Portanto, a razão plena deve nortear-nos não somente na leitura desta obra, como servir também de peremptório juízo crítico para o julgamento de todo e qualquer corpo de ideias que se nos apresente como advindo do insólito Mundo dos Espíritos.
Dessa forma, acreditar na veracidade dos fatos aqui narrados será uma questão de foro íntimo, ligado à maneira de cada um conceber a vida e seu telefinalismo. Aqueles que creem que tudo termina nas portas do túmulo, certamente passarão adiante, sem a mera curiosidade de questionar o sentido da existência e o significado de obras de tão aparente exótica origem. Outros, contudo, que acreditam na imortalidade da alma, poderão aceitar a história como um drama real, vivido no plano do espírito. No entanto, não importa que a encarem como mera ficção, se dela for possível extrair subsídios aproveitáveis em nossa melhoria moral. Nosso esforço terá encontrado a sua recompensa. Eis o que interessa e seguramente este é o escopo maior de todo o nosso empenho, meu e de meus companheiros, deste e do outro mundo.
Gilson Freire
Belo Horizonte, outubro de 2000 (reescrito em abril de 2026)
Nota da Edição revisada de 2011/2026
No início do ano de 2011, tivemos a oportunidade de retomar esta obra, a fim de atualizá-la segundo as novas regras ortográficas em vigor no nosso país. Aproveitamos para revisá-la, corrigindo alguns equívocos gramaticais que nos passaram despercebidos nas primeiras edições e que são de nossa inteira responsabilidade. Nessa tarefa, foi-nos imprescindível a valiosa ajuda de Aristides Coelho Neto, Juraci Sampaio, José Osvaldo de Souza, Gilson Leal Souto e Abel Sidney, os quais muito contribuíram com o aprimoramento do trabalho. A todos esses valorosos amigos enviamos o nosso mais efusivo agradecimento.
Cuidamos ainda de reescrever alguns trechos que foram percebidos em meio a uma névoa de incertezas, podendo conter erros interpretativos. Trata-se de detalhes de personagens secundários que em nada interferem no enredo principal, os quais, como já nos referimos, se devem à deficiência que nos caracteriza e não ao autor espiritual.
Enfim, alertamos o leitor que a história aqui relatada continua na obra Tabernáculo Eterno para ser concluída em Senda Redentora, ambas do mesmo autor espiritual, em que toda a trama exposta é devidamente esclarecida pelas pretéritas peripécias de seus personagens.
Gilson Freire
Sumário
Apresentação: A História de Um Ícaro
1 - Em Portais do Vale
2 - Ovoidização
3 - Heitor, o Novo Amigo
4 - Rumo às Cavernas
5 - O Socorro no Tempo Devido
6 - Fisiopatologia da Autodestruição
7 - No Departamento de Embrioterapia
8 - Na Câmara dos Ovoides
9 - Catherine Lyot
10 - A Bênção do Recomeço
11 - Dias Atribulados
12 - Tempestade Vibracional
13 - Doloroso Transe
14 - Um Homem Sem Memória
15 - Nas Estradas do Passado
16 - Aventuras Inusitadas
17 - Dias Gloriosos
18 - Momentos Históricos
19 - Valiosa Ajuda
20 - Fisiopatologia da Arrogância
21 - Depressão: Tempo de Colheita no Campo do Espírito
22 - Em Busca de Soluções
23 - Nas Penumbras da Morte
24 - Confissões da Intimidade
25 - Lições Para a Eternidade
26 - Sombras de Um Homem
27 - Contenda Inútil
28 - O Senhor dos Canhões
29 - O Padre dos Inventos
30 - Sanando as Chagas do Passado
31 - A força do Perdão
32 - Enfim, o Trabalho
33 - Nos Bastidores da Guerra
34 - Um Pedestal Vazio
35 - Quando o Passado Socorre o Presente
36 - Reencontro Memorável
37 - Em Um Campo de Luzes
38 - Nas Teias do Destino
39 - De Volta à Colônia
40 - O Canhão da Paz
Glossário,
Mensagem de Santos Dumont
Apresentação: A História de Um Ícaro
Conta-nos o mito dos antigos gregos que Ícaro, filho de Dédalo, ousou fugir dos labirintos de Creta, servindo-se de asas construídas com penas, fixadas com cera. Conseguindo voar até as alturas, aproximou-se Ícaro tão demasiado do sol que seu calor derreteu a cera, fazendo-o precipitar-se no mar Egeu. Esse foi o castigo para aquele que, desafiando as leis da natureza, intencionou voar mais alto que os pássaros. Sua lenda ficou na memória da História como sinônimo daquele que é vítima de ambições excessivamente elevadas, além das possibilidades do homem comum. Ícaro personalizou ainda, numa época, o sonho humano de voar como as aves.
Homens eminentes, no desempenho de missões no mundo, representam essa figura mitológica quando, deixando-se conduzir pelo orgulho desmedido, alçam voos tão altos na atmosfera das vaidades humanas que as luzes da altivez lhes abrasam as frágeis asas, precipitando-os em grandes quedas morais. Mas é preciso considerar que Ícaro representa não somente missionários falidos, porém o anseio de todo espírito humano que não basta a si mesmo e está sempre alimentando sonhos de grandeza que lhe façam enaltecer o personalismo enfermiço. Para estes é que Jesus asseverou que “todo aquele que se exaltar será humilhado”2 , pois da arrogância passarão à perda dos valores que lhes integram a personalidade, em situação exatamente oposta àquela orgulhosamente pretendida. Estes movimentos fazem parte da individualidade humana que ainda não conhece o equilíbrio e não sabe situar-se na posição de humildade que nos recomendou o Evangelho: “aquele que entre vós todos é o menor, esse é grande.” 3
O inventor, personagem desta história, foi um destes Ícaros modernos que, escondendo por trás de sua compleição mirrada e frágil uma alma altaneira e audaz, aspirou à maior das glórias humanas ao desafiar as leis da gravidade. Desejou um dia tornar-se uma grande personalidade e inscrever seu nome nos anais da história, como aquele que realizou o maior sonho do homem: voar como os pássaros. Justo imaginarmos que tal encargo, feito sobretudo de soberbia, poderia terminar em tragédia.
O Ícaro de nossa narração, por estar envolvido em elevada atmosfera espiritual, julgou ter a genialidade dos grandes sábios, sendo que, na verdade, apenas copiava o que lhe ditavam à intuição nobres entidades do invisível, desejosas de auxiliar o progresso humano. Acreditando que unicamente a sua inteligência sustinha suas frágeis máquinas, imaginou-se incapaz de falir, enquanto o mundo espiritual trabalhava ativamente para instruí-lo e orientá-lo, a fim de que seus arriscados projetos não se precipitassem em graves fracassos. Os jornais o focalizavam como o herói do novo século e, apesar de sua minguada aparência, era tido como um grande homem, aquele que competia com as águias e ousava desafiar as grandes altitudes. O mundo espiritual, ao programar a tarefa necessária ao progresso humano, sabia dos riscos que tal missão acarretaria para aqueles que se empenhassem em sua execução. Era preciso uma alma muito humilde para realizá-la com a resistência precisa, a ponto de não se deixar abrasar pelas ostentações humanas. Ao mesmo tempo, o malfadado desejo de glórias precisava ser utilizado como um pretexto para o bom êxito da incumbência, pois a alma, que ainda não atingiu a maioridade, não sabe mover-se sem que a jactância lhe dirija o personalismo rumo ao enaltecimento doentio. A empreitada era delicada e difícil, mas era preciso correr os riscos em prol das necessidades do progresso. Para os escolhidos que iriam voar tão alto e experimentar o sabor das maiores vaidades humanas, o perigo da queda moral era uma ameaça altamente provável, superando certamente a possibilidade de precipitarem-se no solo.
O inventor não estava livre dessas ameaças. Conquistou glórias momentâneas no seio dos povos, mas se viu um invencioneiro ao se dar conta de que outros homens, em outras terras, também ouviram e responderam aos apelos do mundo espiritual, que tinha pressa na execução de seus projetos, e semeava ideias em qualquer campo em que pudessem florescer. E esses irmãos disputavam-lhe os mesmos méritos pela primazia do fabuloso invento, como patrimônio exclusivo de suas vaidades. Alimentara a falsa ilusão de ter possuído a maior das genialidades e ter sido o único mortal a vencer as alturas. Mas suas glórias eram falsas tanto quanto eram falsos seus inventos. Com desespero, descobriu-se tão falível quanto qualquer outro mortal. Viu seu nome ser preterido na galeria da História por outros que lhe requisitaram o primado do eloquente feito. Medalhas, títulos, monumentos e honras caíram, desfeitos de um dia para o outro, tais quais castelos construídos nas movediças areias das ilusões egoicas. Não bastaram seus feitos por demais insignes para uma alma em curso na Terra. Ele precisava dessa primazia para alimentar o seu orgulho, que já experimentara o sabor dos louros humanos. Depois a guerra, sim, a guerra com toda a sua crueldade, insistia no uso da máquina que julgava sua, para protagonizar a destruição, contrariando as suas mais sinceras pretensões de paz. O aeroplano, aquele que teimava em considerar seu filho dileto, não podia prestar-se a objetivos tão vis, e sua consciência, martirizada pelo passado de culpas, feria-lhe ainda mais a alma dorida, aprofundando-o no charco a que se atirara.
Seu coração vazio de espiritualismo não encontrou consolo no respeito e no carinho que o seu próprio povo lhe dedicava. Este não se importou com o fato de que outros lhe houvessem desqualificado do título histórico de pai da maior invenção de todos os tempos, fingiu não ouvir e teimou em assim considerá-lo, alçando-o aos píncaros da merecida glória. Seu nome foi enaltecido e seus feitos valorizados acima de seus reais méritos. Mas não bastou. O louvor que lhe consagrava sua singela gente, distante das realidades do mundo de então, não lhe era galardão suficiente. A desilusão instalara-se em seu coração, e ser herói apenas em sua restrita nação não lhe bastava para acalentar a alma doente e ferida, traumatizada pela queda das grandes altitudes do espírito. O drama estava armado e acreditara não ter como evadir-se dele, a não ser através do ato ignominioso: fugir e não mais viver... Pondo fim ao curso da própria vida, o nosso Ícaro precipitou-se no abismo das maiores dores que o ser humano pode colher. Eis a história urdida nestes singelos relatos. Um romance da vida real escrito por quem o acompanhou de perto como nenhum outro.
Revelando as fraquezas e as virtudes de um herói decaído, suas lições visam não a diminuir sua imagem na memória de um povo e importante para o sustento de uma nação, porém à nossa educação espiritual, ensinando-nos que honras e glórias precisam do equilíbrio da simplicidade e da humildade, a fim de não se converter em prejuízos evolutivos para aqueles que as protagonizam. E expondo-nos os bastidores da notoriedade, deixa-nos entrever que o gênio é somente alguém que se capacitou pelo próprio esforço a transformar-se em um canal receptivo das correntes intuitivas que trafegam entre os dois planos da vida.
A doença depressiva e seu cortejo de males encontram aqui uma rápida, porém profunda reflexão sobre as suas origens, enriquecendo-nos com acervo de conhecimentos que nos auxiliam a entendê-la sob diferenciados aspectos, alicerçados nas expressões do espírito eterno, visando sobretudo ao estabelecimento de medidas seguras para a sua prevenção.
A guerra, fonte de ruínas e de grandes dramas, o maior de todos os males que o homem terreno pode empreender, é também abordada nesta obra em um inusitado ângulo, sob a ótica do espírito. As lições daqueles que a viveram sob a dura realidade do lado de cá são preciosos ensinamentos que nos induzem a adotar a mansuetude como norma indispensável de relacionamento em toda a extensão da vida planetária e a envidar todos os esforços para se deter a jornada de sofrimentos e destruições dos grandes conflitos fratricidas entres os povos.
Em síntese, esse é o resumo da obra que temos a alegria de apresentar. Mais um romance lavrado pela influência direta dos espíritos dentre tantos já escritos fazia-se realmente necessário? Certamente que a literatura espírita hoje disponível é profícua o bastante para solver toda a necessidade da alma humana, já de muito carcomida pelo cientificismo materialista diante da insofismável realidade do espírito. Não se necessita, é verdade, de mais novidades para chamar-lhe a atenção nem de novos fatos que comprovem a veracidade do mundo do além. Por isto, esta exposição não traz a pretensão de se juntar à plêiade de literatos do espírito, pois seu relato, à guisa de romance, apenas dá cumprimento às determinações do mundo espiritual que visam, sobretudo, mostrar o verdadeiro roteiro dos acontecimentos que os encarnados podem apreciar somente em um de seus lados. Seu valor não está somente em nos mostrar que a vida continua, apesar de todas as dúvidas do homem terreno, mas em completar a História que, na verdade, se realiza em dois planos de vida e em dois momentos contíguos. Aproximando o curso dos fatos dessa e da outra vida, unindo causas e efeitos, entretece a verdadeira sucessão da História, em sua lógica impreterível, quando vista sob o prisma do espírito. E, assim, o homem em trânsito no planeta não pode mais ignorar que a vida se constrói em duas etapas complementares de experiências, sempre interligadas pela continuidade inquestionável da linha da evolução.
Sem dúvida, muitos duvidarão dos fatos aqui narrados, por se achar ainda presos à ilusão da matéria; entretanto lhes pedimos apenas que os analisem com os olhos da alma, buscando retirar da letra ensinamentos imprescindíveis para a reforma moral que a vida nos suscita. Conhecendo de perto o drama desse Ícaro, certamente aprenderemos a valorizar a existência e a equilibrar os voos do nosso espírito, para que, cientes das ameaças das grandes altitudes do orgulho e da vaidade desmedida, não nos deixemos resvalar para o fosso das ignomínias humanas. Adotando a humildade como norma do viver, aprenderemos a voar até onde nos podem suportar as frágeis asas da alma ainda incapazes de nos suster sobre os imensos abismos que nos separam do Infinito. Compreenderemos definitivamente que as luminares ideias que promovem o progresso humano não são meras e casuais criações de homens de gênio, mas, sim, realizações que obedecem a planos cuidadosamente idealizados pelo mundo espiritual, fonte de toda inspiração humana. E, finalmente, que a História não caminha ao léu e a evolução não se faz ao sabor do acaso, mas se realizam dentro de um edifício conceptual já pronto, obedecendo a diretrizes divinas, cujas extensões não podemos ainda vislumbrar.
Embora apenas dois nomes responsabilizem-se pelo desenvolvimento destes relatos, convém esclarecer que ele é fruto de um esforço de equipe, como tudo que se realiza na vida, sobretudo em nossa esfera. Muitos ajudaram, em ambos os lados da existência e, embora perdidos no anonimato, suas contribuições foram registradas pela vida, que lhes recompensará o empenho. O seu autor principal, Adamastor, embora desconhecido do meio espírita, mostrará os seus méritos pelo seu trabalho e, com discrição, dispensa outras apresentações.
Agradeçamos ao esforço de todos por esta contribuição à História, mesmo que os homens da Terra teimem em não lhe reconhecer a inquestionável veracidade. E agradeçamos, sobretudo, ao Senhor que nos permite a oportunidade do tempo para trabalharmos em favor de nós mesmos, engrandecendo o espírito na jornada rumo à Eternidade.
Que o Senhor nos ampare sempre,
Bezerra de Menezes
Belo Horizonte, setembro de 2000

